Jornalismo e mobilidade: qual formato seguir no telejornal destinado a dispositivos móveis?

Os telefones celulares não podem ser considerados apenas aparelhos de comunicação por voz há um bom tempo. Estes pequenos dispositivos possibilitam a realização do desejo de ubiquidade que para André Lemos é almejado pelo homem desde à criação do telégrafo. Mas, como os produtores devem preparar os conteúdos a serem consumidos através desses dispositivos? O que já aprendemos com o desenvolvimento da web que pode ser aproveitado?

Excetuando-se a voz, as primeiras possibilidades de comunicação móvel mais utilizadas pelo interagente que, em meu entender, já apresentaram rupturas na comunicação foram as mensagens SMS, ao modificarem a própria linguagem escrita, já que as primeiras versões desse sistema não permitiam caracteres especiais e, como nos primeiros bate-papos  da web (mirc), o interagente passou a utilizar códigos próprios (naum, eh,🙂, :’-), etc).

O primeiro SMS foi enviado a um celular em 1992

A possibilidade parece pouco influenciável na comunicação e até superficial a efeito de analise de uma mídia, mas ao considerarmos a possibilidade de escrevermos um texto no celular e publicar na web de qualquer lugar, o simples SMS, antes destinado a amigos, virou sinônimo de micropostagem de conteúdo móvel pelo cidadão. Por exemplo, o Twitter que foi o primeiro serviço a popularizar essa prática de publicação de microconteúdo móvel na rede através do SMS. Isso possibilitou inclusive a cobertura de eventos através do celular. Em maio de 2008, a Gabriela Zago e eu fizemos a cobertura do Congresso Nacional de História da Mída no Twitter. Na oportunidade, utilizei exclusivamente o serviço SMS do meu celular. Participei também de outras coberturas de eventos de comunicação, como o Encontro da Compós,  uma palestra da Agência Click, etc, mas nestas vezes já utilizando o serviço WAP pelo celular para a Compós e o sinal Wi-fi pelo notebook na palestra.

Tecnologias móveis permitem localizar você e seus amigos

Os celulares foram aprimorados e o internauta passou a contar com a mobilidade, através dessa tecnologia WAP, para acessar a web. Hoje, os celulares permitem uma experiência de navegação como nos computadores e, ainda, com funções específicas a serviço da mobilidade, como a utilização de serviços online de transporte e localização (GPS). Alguns desses serviços aparecem junto a temas polêmicos de vigilância que especialistas dizem colocar a privacidade em cheque. Como anunciado recentemente, sabe-se através do Google Latitude que temos a possibilidade de mostrarmos aos nossos amigos onde estamos a todo momento, como também saber onde eles estão pela localização do celular.

O acesso móvel à web tem recebido uma atenção especial dos desenvolvedores de sites e serviços online. Vê-se todo dia novas aplicações móveis, ainda com mais frequência após o desenvolvimento dos smartphones e do surgimento de aparelhos como o iPhone e do projeto de código aberto Android, inovadores na experiência de usabilidade do usuário em dispositivos móveis. A tecnologia 3G trouxe mais largura de banda (velocidade) à rede móvel e facilitou a publicação e o acesso a conteúdos de áudio e video.

A minha atenção a esses dispositivos móveis também foi alimentada por uma questão mercadológica, depois de ouvir no fim do no ano passado em uma palestra de Eduardo Pellanda que, no Brasil, o valor total de impostos pago pelas empresas de telecomunicações supera todo o faturamento das televisões brasileiras. Mesmo que o meu interesse nas tecnologias seja de cunho social e não  mercadológico, fiquei atento a esse número por ele se tornar um grande impulsionador a investimentos neste campo.

Recentemente, falava em uma aula de Design de Interface a respeito dos elementos das narrativas digitais e as características que o produtor de conteúdo precisa levar em conta ao preparar o material para as mídias digitais. Basicamente, existem três configurações de conteúdo na rede quanto a mídia utilizada, os de “única mídia, múltipla mídia e multimídia“. Baseei-me no modelo de Nora Paul e Cristina Fiebich para apresentar aos alunos este elemento “mídia” e os outros quatro que são “ação, relacionamento, contexto e comunicação”.

A partir desses elementos podemos compreender quais mídias utilizar (texto, audio, video), que formatos escolher (animações, gráficos), de que forma transmitir (ao vivo, gravado), determinar que ação sobre o conteúdo o internauta estará apto (ativa ou passiva), se o relacionamento será aberto ou fechado, como lidar com o hipertexto e, ainda, as formas de comunicação permitidas (única ou dupla-via). Esses elementos determinam hoje a narrativa digital que pode ser encontrada na web desde a sua forma mais compacta (publicação de uma única mídia) até a mais avançada (um conteúdo multimídia com ação ativa do internauta e alto grau de interação).

As tecnologias móveis e a narrativa utilizada para os meios digitais são os dois pontos que desejo destacar nesta postagem, pois na próxima quarta-feira (08/04/09), a Rede Globo estará anunciando a produção de telejornais específicos para celulares. Segundo a coluna Outro Canal, da Folha de S. Paulo, Roberto Ireneu Marinho disse que “a evolução tecnológica da indústria de comunicação está criando novas oportunidades de participação, interatividade e de escolha do público sobre que conteúdos consumir, como e quando fazê-lo” e por este motivo as novas mídias passam a ser prioridade da empresa.

Programação de telejornais da Rede Globo específicos para celulares vai ao ar no segundo semestre de 2009

Programação de telejornais da Globo para celulares vai ao ar no segundo semestre

Essas oportunidades realmente me parecem possibilidades indiscutíveis nos novos mídias, mas ao fazer uma análise da história do jornalismo na web, percebo que as possibilidades de participação, interatividade e escolha só passaram a integrar os veículos tradicionais depois que mídias sociais fizeram frente a esses veículos. Nesse papel social considero uma parte da blogosfera e sistemas colaborativos (Wiki). O próprio New York Times perde em números de leitores para a blogosfera há mais de um ano.

Bem é verdade que diversos veículos online institucionalizados (G1, Terra, UOL, FolhaOnline) permitem a participação ativa do internauta na escolha do conteúdo, interatividade através dos comentários das notícias, cooperação na construção do conteúdo através de canais da audiência (VC Repórter, VC no G1), mas como já alertado esses veículos não surgiram com esse formato na web e, mesmo considerando essas características, as possibilidades de escolha, participação e interação ainda  parecem pouco exploradas. O que está em questão são as formas de produção de conteúdo e quais possibilidades de interatividade são permitidas aos internautas nesses espaços.

Os números de expansão das tecnologias móveis indicam que a utilização de celulares para se ter acesso ao conteúdo da web crescerá exponencialmente nos próximos anos. Ao se produzir conteúdo jornalístico para esses dispositivos, deve-se estar atento ao que ocorreu com o desenvolvimento da narrativa digital utilizada pelo jornalismo desde o início da web. Penso que já se tem conhecimento da experiência do usuário desde as primeiras publicações jornalísticas na rede que servem de instrumento para que não se cometa os mesmos erros. Vejo que os telejornais destinados a celulares da Rede Globo, anunciados para o próximo semestre, precisarão seguir essas oportunidades de participação, interatividade e de escolha do público, destacadas pelo seu presidente. Do contrário, cairão na mesma lógica do broadcasting de seus outros veículos (ainda vejo os sites de notícias institucionalizados nesta lógica). Mesmo percebendo que a interação nos sites de notícias tem sido estimulada nos últimos anos, creio que está muito aquém das mídias sociais.

A produção de conteúdo destinado aos dispositivos móveis precisa encontrar uma linguagem própria nesta narrativa digital já conhecida, pois a experiência do usuário é alterada não apenas pelas modificações na usabilidade e navegabilidade, mas pela possibilidade de estar conectado todo  tempo em qualquer lugar. Por exemplo, qual narrativa será utilizada em um telejornal para celulares ao considerarmos que seu telespectador assista-o enquanto dirige e apenas ouça o áudio e não veja as imagens?

Após o anúncio do formato oficial dos telejornais para celulares da Rede Globo na próxima quarta-feira, farei uma postagem para ver quais desses aspectos já estão presentes nesse novo projeto. Confesso que na época do lançamento do G1 fiquei positivamente surpreso com o modelo apresentado, mas já o vejo ultrapassado em alguns pontos, principalmente no que diz respeito à participação, multimídia, e aproveitamento de ferramentas como os trackbacks, pouco utilizada pela própria blogosfera brasileira.

A propósito, por que chamarmos de telejornal um programa jornalístico destinado a estes dispositivos móveis que deve [ou deveria] sofrer considerável transformação em sua narrativa? Vejo que não só a narrativa deva ser inovada, mas o próprio nome desse formato jornalístico necessita atualização.

Aguadarei o formato que será apresentado pela Globo e publicarei  como compreendo que essas narrativas devem ser na concepção de Web 2.0 ao serem influenciadas pela mobilidade do internauta.

3 Responses to “Jornalismo e mobilidade: qual formato seguir no telejornal destinado a dispositivos móveis?”


  1. 1 Aline de Campos quarta-feira, abril 8, 2009 às 8:09 PM

    Apesar de algumas iniciativas interessantes como o o envio de vídeos para programas de televisão, a escolha de pautas (por exemplo, o Detetive Virtual do Fantástico), os blogs da produção e dos autores de novelas e seriados, creio que já passou da hora do canal de maior audiência e poder aquisitivo da TV aberta atentar para a questão da mobilidade fazendo conteúdo adaptado ao formato e não uma transposição direta. Fico também na expectativa de que os conteúdos para dispositivos móveis realmente possibilitem interatividade de fato.

  2. 2 ingrid quinta-feira, março 25, 2010 às 11:03 AM

    qual a importancia do jornalismo


  1. 1 Globo confirma telejornais para celulares mas não anuncia características do modelo dos programas « Web Research Trackback em segunda-feira, abril 13, 2009 às 11:33 AM

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